Reticências.

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Nesse looping de memórias, o que queima minha mente são suas palavras. Mas o que realmente arde é o seu silêncio.

Você não foi atrás de mim. Não se defendeu. Virou as costas e com isso também virou a página do livro da sua vida que continha a nossa história, sem terminar de lê-la. Me congelou no tempo e no espaço e também no seu coração, deixando o meu ferido e gelado.

Por causa da leitura de vários romances, me acostumei com histórias que possuem começo, meio e fim. E acho que a maior parte do meu desassossego no último mês toda vez que penso em você se deve à grande tenuidade que se criou entre o durante e o final. Nosso fim possui uma data, mas não possui uma consumação. Não proferimos palavras de adeus. Deixamos tudo subentendido, mas minha alma nunca soube lidar com o que não fosse direto e claro. Continuo imaginando o que poderíamos ter sido e não fomos. Continuo criando um universo paralelo em que tudo dá certo como naquele futuro utópico que imaginávamos para nós antes de a realidade bater na nossa cara como uma bofetada.

Entretanto, cada dia é mais suportável lidar com esse vácuo que você criou e eu permiti que se expandisse. Ouvi em uma notícia de esportes sobre como o desempenho de um time durante o campeonato pode ser até mais importante do que a colocação que ele alcança no fim, e aquilo me soou tão profundo que levei para além do futebol. O próximo passo é me tornar filósofa de embalagem de shampoo. Eu, que me acostumei com as últimas palavras dos livros serem “e viveram felizes para sempre” seguidas de um enorme “FIM” que cobria a página inteira para não deixar dúvidas de que aquilo era uma certeza absoluta, descobri que, além de o mundo não ser um conto de fadas, coisas boas não tem um fim e ponto final. Ou continuam até definharmos, ou terminam no meio de uma sentença e deixam o restante flutuando no ar com um grande talv…
Acho que é porque nosso durante foi tão incrível que a melancolia me consome diariamente. Não posso fingir e dizer que esquecerei de tudo, que não significou nada. Uma das provas da sua existência é o meu coração apertado pela falta que eu sinto de você e a lição que aprendi baseada em toda a sua frieza. Você sempre será uma parte de mim, como um lembrete que eu guardo em um baú para abrir e ler quando uma onda de nostalgia me abater, e ficar imaginando comigo mesma “e se?”.
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De sereia para peixe

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Eu tô com essa coisa entalada na minha garganta. Na minha garganta, no meu coração, no meu cérebro. E nem ao menos consigo transformar em sentenças, porque essa massa de emoções não se torna algo fluído. Posso encher esse texto de palavras que remetem ao que eu sinto. Raiva. Ilusão. Agonia. Tristeza. Luto. Saudade. Traição. Ingenuidade. Paixão. Saudade. Dor. Pesar. Saudade. Mas mesmo com todas as palavras existentes na língua portuguesa, ainda sinto que não encontrei aquela que resume todos os meus sentimentos neste momento.

Você chegou na minha vida como quem não queria nada além de diversão. E eu procurava pela mesma coisa. Logo, nos tornamos parceiros inseparáveis de momentos felizes. Mas você sempre fez questão de soltar aquela palavra, aquela frase, de puxar aquele assunto que significava algo a mais. Eu não sabia que era um peixe, e muito menos que havia uma isca ali, até você me fisgar.

Fui puxada e também nadei voluntariamente contra a correnteza, consciente das dificuldades. Eu poderia ter ido pelo caminho fácil que era para longe de você. Mas sempre disseram que não há relacionamentos sem dificuldades, e por isso continuei nadando, e nadando. Sem perceber que eu estava nadando para baixo ao invés de para frente. Abria mão de momentos importantes para falar com você, ficava mal quando você demorava para responder, sempre imaginando se era recíproco e, se era, então por que você demorava tanto para aparecer?

Mas você sempre esteve certo do que queria. E estava na sua zona de conforto. Eu deveria ter notado. Pela naturalidade com que você conversava e me elogiava, pela forma como tudo o que você falava parecia ser brincadeira. Você teve o controle da situação, e sempre manteve uma saída de emergência aberta.

Não sei em que momento você chegou à conclusão de que não valia mais a pena. Mas exatamente o que não valia mais a pena? Inventar desculpas? Ter minha companhia? Ter alguém que se importasse contigo? Ceder, o mínimo que fosse, às vontades e sugestões que eu dava? Será que foi o filme que eu insisti para que você assistisse que te fez decidir que era hora de cortar o fio que segurava o anzol atado à minha boca? Ou a mísera sensação de liberdade que sentiu quando as férias e a falta de obrigações te proporcionaram? Eu não sei. Nunca terei a coragem ou a falta de dignidade pra te perguntar.

Porque o único fato que não tem um pingo de brincadeira na nossa história foi que você partiu, e eu não te quero de volta. Você me fez acreditar que há pessoas como eu por aí, mas você não é uma delas. Apesar do seu embrulho ter sido lindo, você não teve o que é mais importante do que a quantidade de instrumentos musicais que toca ou flexões que consegue fazer de uma só vez: Você não teve mais maturidade do que eu.

Desenosando

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Ela estava tomando banho. Claro que isso, na verdade, era apenas um fator externo. Ela estava refletindo sobre suas atitudes, suas experiências, sua vida. Lembrando de todo o caminho que percorreu. Estava na metade das férias de inverno depois de um semestre exaustivo na faculdade. Pensou em como conseguiu sobreviver, e a palavra “método” saltou na sua mente. De repente, ela notou que tudo em sua vida acontecia através de métodos. Antes de ir para baixo do chuveiro, desconectou de todas as redes sociais do computador que estava usando. Primeiro o Facebook, depois o Gmail, o Skype e a conta do Netflix. Era o notebook da sua irmã, e ela sempre brigava quando a caçula esquecia de deslogar. Por causa disso, adquiriu esse método. Enquanto aplicava shampoo no seu cabelo, percebeu que também seguia um método… Para tomar banho. “É demais”, pensou ela. Já tinha se tornado mecânico: Primeiro o shampoo, aplicar na raiz, espalhar com os dedos até as pontas, seguindo o caimento do cabelo. Massagear levemente. Enxaguar inclinando a cabeça para trás. Aplicar novamente. Pegar o condicionador, aplicar nas pontas, NÃO COLOCAR NA RAIZ. Esperar 5 minutos, enxaguar.

Ela tomou uma decisão: Férias. Chega. Iria permitir-se fugir do método, viver mais naturalmente, deixar-se levar pela correnteza, pelo menos nos próximos dias. Então, quando aplicou o shampoo, espalhou-o por todo o cabelo e fez algo que não fazia há muito tempo: Diversos penteados com a espuma. Moicano, achatado, cientista maluco, etc. Quando enxaguou, a consequência: O cabelo estava cheio de nós e com uma textura péssima. Levou o dobro de tempo no banho para arrumar e fazer o cabelo voltar ao normal, não sem perder muito mais fios que o normal.

Ela chegou à conclusão de que viver com métodos não é ter uma vida quadrada e sem sal, e sim economizar tempo para poder gastá-lo com o que realmente importa sem esquecer de nada pelo caminho. Então, assim que saiu do banho logou no Facebook, no Gmail, no Skype e no Netflix e começou um episódio do seriado que já poderia ter assistido a metade se tivesse seguido o método de sempre no banho. Mas tudo bem, ela estava de férias.

A era da pseudo-inteligência

 

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No início desse ano a comoção em torno do vestibular foi enorme, ao menos para mim, por tê-lo vivenciado com tanta intensidade. E é claro, em conversas sobre o assunto, o fator estudo sempre acaba se tornando pauta. “Quanto você estudou?”, “Tinha dificuldade em quais matérias?”, “Fez cursinho?”, “Veio de colégio público ou privado?”. É claro que o conjunto de respostas diferenciava – e muito – as pessoas, mas um comentário em comum chamou minha atenção de uma forma pejorativa.

Quando esse tema começou a ser levantado, a maioria das pessoas falava – e com orgulho – que não estudou, que dormiu durante as aulas, que levou o ano como quem está em férias duradouras, mas mesmo assim passou. Desculpe, não consigo acreditar em você e acho errado o que está fazendo.
Olhe, não estou querendo generalizar. Existem pessoas inteligentíssimas no mundo sim, e faculdades costumam reuni-las, mas se todas as pessoas que ouvi dizerem isso forem realmente tão superdotadas de inteligência, como afirmam indiretamente, temos um verdadeiro congresso de gênios diariamente nas Universidades.
O meu ponto é: Está tudo bem você ter inteligência de nascença e possuir facilidade para estudar, e está tudo bem também você não possuí-la e esforçar-se ao máximo para atingir seus objetivos. O que está errado é menosprezar indiretamente essa segunda classe de pessoas afirmando que pertence à primeira quando sabe que é mentira. Isso é uma forma de preconceito também. No final das contas, não importa quem larga na frente, e sim quem chega primeiro. Muitas vezes, essa facilidade em absorver conteúdos faz com que a pessoa procrastine mais, se acomode mais. O contrário acontece com a pessoa que reconhece suas dificuldades e decide supera-las, sempre mantendo-se na ativa. A fábula da lebre e da tartaruga exemplifica isso muito bem: A lebre, rápida por nascença, decide disputar uma corrida com a tartaruga. Certa de que iria ganhar, larga na frente, adquire vantagem, encosta-se numa árvore e dorme. A tartaruga, devagar e constante, ultrapassa a lebre e chega no final do percurso em primeiro lugar.
Vale ressaltar que existem n tipos de inteligência, e que nenhum deles é melhor ou pior que o outro. Apenas diferentes. A inteligência que você possui pode ser diferente daquela que seu melhor amigo adquiriu, e todas as pessoas são inteligentes em um ou outro âmbito. A mania de generalizar e homogeneizar tudo é forte, mas é necessário ir contra a correnteza nesse aspecto.
Precisamos nos conhecer inteiramente, nos aceitarmos da forma como somos, e aí sim veremos que não há necessidade de auto-promoção a partir de coisas não relevantes como a origem da nossa própria inteligência. O importante é o que você irá fazer com ela.

A vida com expectativas requer mais coragem

 

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Você já criou expectativas? Ficou esperando para que algo acontecesse e quando chegou a hora… Não aconteceu. A vaga não é sua. Você não ganhou o aumento. Tirou uma nota baixa na prova. O presente não era o que você estava esperando. Aposto que sim. Eu também já.

Conforme o tempo passa e as expectativas frustradas deixam o coração calejado aprendemos que a melhor forma de nos mantermos inatingíveis é não criando expectativas. Pensar no pior cenário possível e dessa forma se surpreender se o resultado for positivo ou aceitar com menos dor o resultado negativo parece ser mais fácil. Eu estava fazendo isso com relação à minha aparência e não sabia.

Certa vez uma amiga me disse que eu seria linda quando atingisse o auge da minha beleza. Entendi que o “auge da beleza” é uma união da aparência da fase mais bela da sua vida com o máximo de esforço que você pode deliberar para ficar bonita. E, como eu disse, é o auge. Para frente, inevitavelmente, as coisas irão decair. Eu não sabia o quanto isso havia me afetado até pouquíssimo tempo atrás. A forma como me afetava (e, infelizmente, ainda me afeta), é a mesma forma como a indústria cultural para garotas pré-adolescentes atua. O cliché da garota aparentemente feia por ser natural, mas por um evento ou por qualquer outra razão decide mudar de visual, aparece deslumbrante, todos passam a tratá-la de uma forma melhor e fim, feliz para sempre. Eu poderia encher o restante desse texto com exemplos de filmes e livros sobre o assunto, mas tenho certeza que muitos títulos estão pipocando na mente de vocês neste momento.

Mas e quando você tem a sensação de que não é a hora de atingir o auge da sua beleza ainda? Que não está na hora de desabrochar? É nessa hora em que você entra na minha situação.

Sempre imaginei que minha época de ouro seria a partir dos vinte anos. Dessa forma, passo os anos que os precedem não dando a mínima para a minha aparência. Me recuso a usar salto alto por me considerar muito nova. Quase não uso maquiagem. Não faço mais do que minha obrigação com meu cabelo. Quase nunca pinto minhas unhas. E, durante todo esse tempo achava que era porque eu simplesmente não gostava de toda essa vaidade. Percebi, enfim, que é mais uma questão da expectativa das pessoas sobre mim. Se eu não me cuidar as pessoas vão perceber que eu não me esforcei para ficar bonita. Logo, não irão me achar feia. Assim eu não crio expectativas e não me decepciono. Uma lógica bobinha, mas que engana bem o cérebro.

O problema é que isso está errado demais para a autoestima e limita a gente. Uma das melhores coisas que existem é a sensação de estar bonita para si mesma ao invés de estar em busca de aprovação alheia. Aliás, não há essa história de auge da beleza. Os padrões mudam, as opiniões também, assim como os gostos. Existem infinitas possibilidades para se experimentar. Não é possível agradar todo mundo, e viver percorrendo elogios é tóxico para o corpo e mente.

Seja o seu próprio auge todos os dias, crie expectativas, corra atrás. Essa é a maneira mais linda de viver e de ser feliz.