De sereia para peixe

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Eu tô com essa coisa entalada na minha garganta. Na minha garganta, no meu coração, no meu cérebro. E nem ao menos consigo transformar em sentenças, porque essa massa de emoções não se torna algo fluído. Posso encher esse texto de palavras que remetem ao que eu sinto. Raiva. Ilusão. Agonia. Tristeza. Luto. Saudade. Traição. Ingenuidade. Paixão. Saudade. Dor. Pesar. Saudade. Mas mesmo com todas as palavras existentes na língua portuguesa, ainda sinto que não encontrei aquela que resume todos os meus sentimentos neste momento.

Você chegou na minha vida como quem não queria nada além de diversão. E eu procurava pela mesma coisa. Logo, nos tornamos parceiros inseparáveis de momentos felizes. Mas você sempre fez questão de soltar aquela palavra, aquela frase, de puxar aquele assunto que significava algo a mais. Eu não sabia que era um peixe, e muito menos que havia uma isca ali, até você me fisgar.

Fui puxada e também nadei voluntariamente contra a correnteza, consciente das dificuldades. Eu poderia ter ido pelo caminho fácil que era para longe de você. Mas sempre disseram que não há relacionamentos sem dificuldades, e por isso continuei nadando, e nadando. Sem perceber que eu estava nadando para baixo ao invés de para frente. Abria mão de momentos importantes para falar com você, ficava mal quando você demorava para responder, sempre imaginando se era recíproco e, se era, então por que você demorava tanto para aparecer?

Mas você sempre esteve certo do que queria. E estava na sua zona de conforto. Eu deveria ter notado. Pela naturalidade com que você conversava e me elogiava, pela forma como tudo o que você falava parecia ser brincadeira. Você teve o controle da situação, e sempre manteve uma saída de emergência aberta.

Não sei em que momento você chegou à conclusão de que não valia mais a pena. Mas exatamente o que não valia mais a pena? Inventar desculpas? Ter minha companhia? Ter alguém que se importasse contigo? Ceder, o mínimo que fosse, às vontades e sugestões que eu dava? Será que foi o filme que eu insisti para que você assistisse que te fez decidir que era hora de cortar o fio que segurava o anzol atado à minha boca? Ou a mísera sensação de liberdade que sentiu quando as férias e a falta de obrigações te proporcionaram? Eu não sei. Nunca terei a coragem ou a falta de dignidade pra te perguntar.

Porque o único fato que não tem um pingo de brincadeira na nossa história foi que você partiu, e eu não te quero de volta. Você me fez acreditar que há pessoas como eu por aí, mas você não é uma delas. Apesar do seu embrulho ter sido lindo, você não teve o que é mais importante do que a quantidade de instrumentos musicais que toca ou flexões que consegue fazer de uma só vez: Você não teve mais maturidade do que eu.